13 Reasons Why é uma série que vai além da temática do bullying .

Mais uma temporada da polêmica “13 Reasons Why”.

Mais uma temporada da polêmica “13 Reasons Why”, mais um tiroteio numa escola americana, o 22o do ano… O que será que está acontecendo conosco?

O seriado desta vez começa diferente, com uma breve apresentação dos principais atores alertando que se trata de uma obra de ficção, que aborda temas difíceis como agressão sexual, uso de drogas e suicídio, entre outros. Destacam que a intenção ao tratar esses temas é estimular o diálogo e alertam para o fato de que pessoas que estejam passando por problemas semelhantes não devem assistir e, se mesmo assim quiserem fazê-lo, devem assistir junto com um adulto confiável.

Confesso que é a primeira vez que vejo um alerta e um desestímulo para que a plateia não assista a um seriado. Mas por que ele gerou tanta polêmica e discussão? “13 Reasons Why” é uma produção original da Netflix, feita por eles mesmos de maneira muito bem feita e cuidadosa. Um dos grandes méritos é o tema da convivência no ambiente escolar, com todas as nuances e interfaces desse convívio. Aos poucos vamos desvendando uma história que não tem só uma narrativa, só um ponto de vista ou só uma interpretação dos fatos… Os personagens são complexos, e suas histórias, também. Não existe só um “culpado”, não existe só uma vítima… O que se apresenta é um sistema doente como um todo, em que os mais fracos sofrem a pressão de forma diferente dos demais…

No começo do seriado chegamos a ter uma certa resistência aos problemas enfrentados pela protagonista, como se eles não fossem importantes o suficiente para levar uma pessoa ao suicídio. No entanto, quem somos nós para avaliar a dor alheia? A minha dor é a maior do mundo porque é a minha, ora bolas! Quem está sofrendo sou eu! Assim, já aprendemos que não dá para diminuir a dor do outro… Não dá para negligenciar o sofrimento de um jovem…

Com o lançamento da segunda temporada da série “13 Reasons Why”, a temática do bullying volta à tona. A primeira temporada nos faz refletir sobre o quanto falta confiança nas relações, em especial nas famílias, entre pais e filhos, se estendendo à escola na relação entre professor e aluno e, também, entre alunos. É nítido como as relações apresentadas na série são superficiais, sem cuidado e sem atenção, de forma que se exige do adolescente uma postura de adulto, de maturidade, no momento em que ele está em fase de transição. Pode ser notado que esse período tão confuso para os adolescentes não é respeitado nem na série nem na vida real.

Aliás, respeito. Essa é a chave, sob um ponto de vista, para desvendar o que há por trás do bullying. Pode parecer óbvio e simples, mas, como já dissemos, o óbvio também precisa ser dito. Respeito é base de todo e qualquer relacionamento. É saber se expressar e deixar o outro se expressar, identificando e estabelecendo limites que, se ultrapassados, podem resultar em conflitos. O respeito deve ser iniciado consigo mesmo, entendendo que não se deve fazer algo apenas para agradar alguém, para ser aceito em um grupo ou até mesmo para satisfazer um desejo momentâneo. O respeito é um dos principais valores que devem ser construídos ao longo da jornada de um indivíduo, tendo como base a autoestima e o amor-próprio, tudo o que se traz de bagagem do nosso primeiro exemplo de relacionamento: nossos pais.

Respeito também nos leva a um autocontrole, algo mínimo que se espera de um jovem em idade colegial, apesar da explosão de hormônios que o faz oscilar em emoções e condutas. Quem já passou pelo ensino médio sabe o quanto essas oscilações podem afetar as atitudes dos jovens, a ponto de serem cruéis. Já é sabido que falar do outro, seja de suas características físicas ou atos cometidos, dependendo da entonação, do momento e da maneira como é disseminada a informação, de certa forma fere e desrespeita quem está sendo alvo. É onde começam as sementes para o bullying.

Não sei se perceberam, mas a forma como a personagem principal da série diz “não” ao fotógrafo da escola quando ele se mostra interessado nela, o faz sentir uma raiva imensa e, claro, o leva a agir impulsivamente. O resultado foi uma agressão de forma desrespeitosa: a publicação de uma foto íntima na rede da escola, sem autorização da menina. São dois adolescentes em fase de transição, aprendendo a se relacionar. Com base em seus próprios repertórios de vida, passam a ser agressores ou agredidos. De um simples comentário, praticam o bullying, sabendo ou não que este pode se transformar em violência e acarretar danos irreparáveis.

De qualquer forma, em qualquer papel, agressores e agredidos são vítimas como um todo. Vítimas de uma sociedade cada vez mais líquida. Cada vez mais ansiosa e superficial, que descarta tudo aquilo que não a agrada e julga não servir mais. Parece que se relacionar tornou-se algo do século passado. Tolerância ao próximo, então… o que seria isso? Reflexos de uma vida agitada, sem sentido e que impacta diretamente no olhar dos pais sobre os filhos, dos professores sobre os alunos, dos alunos sobre os colegas e, principalmente, do olhar sobre si próprio.

O cuidado de perceber o outro parece ser distante no dia a dia principalmente porque as pessoas não aprendem a cuidar de si mesmas.

E no ápice de um conflito em que se tem vítimas dentro de uma escola, um lugar que forma pessoas, a grande pergunta é feita:  de quem é a culpa? Será que é essa mesmo a pergunta que se deve fazer? Ou não seria melhor mudar o ponto de vista e refletir sobre como, onde e quando devemos começar a agir diferentemente para desenvolver jovens com mais autoestima, mais segurança e confiança de que não estão sozinhos neste mundo?

Portanto, não podemos negligenciar a dor do outro. É preciso haver empatia.

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