A Comunicação Não Violenta no contexto escolar

Há 70 anos, um marco foi criado na história mundial: o assassinato do pacifista indiano  Mohandas K. Gandhi e que hoje, proclamada pela ONU, comemora-se o Dia da Não Violência.

E muito além de uma data, o contexto da não violência está presente até hoje em diversas técnicas, comunicacionais e relacionais e quem nos traz uma metodologia para sua diminuição no mundo é o psicólogo clínico Marshall Rosenberg que, em sua proposta, ensina as pessoas a se libertarem dos condicionamentos e dos efeitos de experiências passadas, além de transformar padrões de pensamento que levam a discussões, sentimentos como raiva e até mesmo a depressão.

Ele propõe, com seu método denominado de Comunicação Não Violenta a resolver conflitos de maneira pacífica, criar e manter relacionamentos tendo como base o respeito, a compaixão e a cooperação.

Seu trabalho, difundido mundialmente, ganhou a admiração de muitos profissionais que hoje compartilham seu conhecimento e experiência seja no âmbito jurídico, familiar, empresarial e, até mesmo, escolar.

Em Belo Horizonte, Ana Carolina Ramos Jorge, estudiosa sobre o tema e atuante na área de conciliação e mediação na Justiça Federal e em projetos de Justiça Restaurativa junto às escolas, passou a tarde com a equipe da Menthor para uma conversa sobre a Comunicação Não Violenta (CNV) no ambiente escolar e que deixamos um trechinho dela aqui, para você!

 

Annemarie: Ana, explique pra gente o que é a CNV?

Ana Carolina: A Comunicação Não Violenta é um método baseado na prática da não violência, criado por Marshall Rosemberg, tendo como precursores Maratma Gandhi, Martin Luther King e o Liev Tolstoi, que pressupunham que toda forma de violência deveria ser rejeitada.

Seu método é uma forma de a pessoa se manter confortável e humana mesmo sofrendo uma agressão verbal, por exemplo. Ele ressalta que, apesar de estarmos em um conflito, não perdemos a humanidade e, além disso, a forma de nos comunicar pode ser muito violenta porque não entendemos as necessidades do outro que estão em jogo na hora de um embate.

 

Annemarie: Então, entender a Pirâmide das Necessidades de Maslow é fundamental para compreendermos e aplicarmos a CNV, uma vez que é nelas que a gente se encontra, ou seja, é nas necessidades que há o encontro entre dois seres humanos.

E como acredita que seja possível estabelecer uma Comunicação Não Violenta em um ambiente que por si só pode se demonstrar violento, seja pela falta de estrutura, calor excessivo, muitos alunos… ?

Ana Carolina:  A mudança é passível de ocorrer a partir do momento em que um professor se propõe a utilizar o método da CNV e se dispõe a fazer as mudanças necessárias para enxergar a violência, não apenas a física, mas também a velada, que é aquela em que se reconhece uma pessoa que tem atitudes violentas em maior ou menor grau, mais ou menos explícitas, como a competição e até mesmo o rótulo que se faz de alguém, por exemplo:  “você é preguiçoso”  – e isso o diminui enquanto pessoa e demonstra incapacidade para enxerga-la como um todo.

Quando as questões estruturais aparecem e podem ser faladas, e as pessoas escutam umas as outras e os desconfortos são falados de uma maneira que não violente outra pessoa, que não gere sofrimento, mas cada um falando da própria necessidade, isso já melhora o clima. E o mais interessante é que o método pode ser aplicado em qualquer situação, não tem formalidades, nem forma de ser realizado. Pode ser abordado de varias maneiras!

Se existe uma conversa sobre uma questão que não tem solução, por meio daquela conversa já é possível estabelecer uma conexão entre as pessoas e gerar possibilidades para que as necessidades sejam atendidas de forma criativa.

Se as pessoas tem oportunidade de falar e tem o propósito de resolver uma questão a partir do momento em que cada um fala de si e acolhe as necessidades alheias, isso propicia um ambiente que favorece a criatividade. Prestar atenção no que você fala promove respeito e tranquilidade.

 

Annemarie: E como se faz isso quando o aluno desafia a autoridade do professor? Muitas vezes há um aluno que debocha o professor, faz chacota e há colegas para incentivar, bater palmas, acharem graça. Como que o professor fica nessa situação de extrema vulnerabilidade? Como ele age com uma Comunicação Não Violenta quando ele está sendo efetivamente agredido?

Ana Carolina: Antes de tudo, é necessário entender se o professor está disposto a usar esse método que, mesmo sendo simples, requer um despojamento. A busca do professor é muito mais pelo respeito que pelo poder. No momento que ele se dispõe a usar a CNV, ele está disposto a olhar para os interesses, os sentimentos e as necessidades do aluno. Ele será visto não como quem faz bagunça, mas quem precisa de algo e, nesse sentido, de qual necessidade ele está falando? É um questionamento que o professor deve fazer de forma insistente para atingir um objetivo: “o que você precisa?”

 

Annemarie: E como, na prática, ocorre a CNV?

Ana Carolina: A técnica é composta por quatro fases:

  1. Observação ao invés de julgamento
  2. Busca pelos sentimentos ao invés dos pensamentos
  3. Busca pela necessidade que esta por trás do sentimento e não exigências
  4. E por fim, saber fazer o pedido.

É necessário se restringir ao fato. É o caso do vizinho que coloca som alto. Ele não é abusado. Ele é apenas o vizinho que escuta o som alto.

Após observar os fatos, é necessário entender e perceber os sentimentos que passam internamente naquele momento. Tenho que identificar como me senti com o que aconteceu, se fiquei triste, frustrada, chateada. É importante dar nomes e definir  nossos sentimentos.

Depois de entender qual a minha necessidade, tenho que deixar claro que a necessidade é minha e não que a pessoa mude. Aí vem o pedido, que deve ser feito, mas eu preciso entender que meu pedido pode ser uma exigência que, se não for cumprida, pode virar uma punição.

 

Annemarie: Hoje, percebemos muitos relatos de alunos desinteressados, inclusive um aumento da Geração “nem nem”, que nem estudam e nem trabalham. São jovens que não tem preparação para saber o que precisam. E, com tanta liberdade, estão sem limites e se perdem. Qual o limite que se estabelece entre a CNV e a pessoa que deve seguir regras, normas e ter disciplina? Como enxergar o limite o outro se não se enxerga nem o próprio?

Ana Carolina: O método é trabalhoso e os professores podem usar com os alunos. A partir do momento em que os professores param para escutar os alunos, eles passam a fazer os trabalhos de forma melhor. O tempo gasto com os alunos vale a pena, inclusive no aprendizado.

Além disso, o interessante é ressaltar que ouvir o outro é difícil. Ao mesmo tempo que eu te ouço, há também um diálogo interno com minhas experiências. Ou seja, há um duplo diálogo, externo e interno. E então, eu estou pronto para me ouvir?

 

Aqui na Menthor, a Comunicação Não Violenta é uma das técnicas utilizadas junto aos professores no curso Ponte Para a Paz – Criatividade na Resolução de Conflitos e Indisciplinas Escolares! Saiba mais sobre essa e outras técnicas para lidar diariamente com seus alunos na sala de aula 🙂

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