Brinquedos incorretos de gente correta

Minha geração teve brinquedos incorretos.

Arminha de plástico era comum, metralhadora também. Brincar de polícia e ladrão era beeem divertido com esses assessórios. O programa de TV predileto reunia um nordestino, um coxinha, um negro alcoólatra e um homossexual. As piadas reuniam o fino da bossa da política incorreta: a chacota e o bullying diante das fragilidades e estilos de vida de cada um. (Um dia desses, numa exposição de brinquedos antigos, achei um jogo de tabuleiro chamado Os Trapalhões na Serra Pelada! Exposição de crianças a uma brincadeira que remetia ao maior garimpo a céu aberto no mundo, cheio de mortes, violência, drogas, bebidas e prostituição?). As diferenças existiam, eram apresentadas e tratadas de uma forma engraçada, não necessariamente correta.

Ficar na rua até tarde podia, fazer bolo de barro também, tomar banho de chuva era o máximo e brincar de pera, uva e maçã não era assédio sexual. Televisão só no final do dia, e era para assistir um clássico da literatura brasileira – Monteiro Lobato no seu Sítio do Pica Pau Amarelo.

Nossos cabelos podiam ser o que fossem – longos, curtos, cacheados, encaracolados, rebeldes e arrepiados. Nossa beleza não tinha padrão, éramos só crianças que estudavam, faziam as tarefas de casa e brincavam no tempo que sobrava. E só. Não tínhamos agenda, tínhamos caderneta. Marcar a presença em um minúsculo espaço para bilhetes era o suficiente.

A indisciplina era tolhida de forma rápida e certeira – a regra existia e era clara: professor era respeitado, enquanto um falava o outro calava. Óbvio que também cometíamos nossas desordens, nossas bagunças e indisciplinas, mas o conteúdo programado era dado, o aprendizado acontecia.

A maioria de nós se transformou em gente correta, que trabalha, que paga suas contas, que vive em harmonia… mas não estamos sabendo como criar nossos filhos. Temos medo de ser politicamente incorretos, medo da violência, da pedofilia, dos direitos humanos, da homofobia, do preconceito e de tantas outras coisas que ainda não sabemos direito como lidar, ainda que acreditemos que são discussões pertinentes, necessárias e desenvolvedoras de um olhar mais acolhedor de nossas humanidades.

Fugimos disso tudo proporcionando para nossas crianças uma agenda lotada de compromissos e aulas particulares que as preparam para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo. As agendas são grossas e permitem uma troca intensa de bilhetes e opiniões entre pais e professores – fulaninho se queixou disso, a prova foi corrigida de forma inadequada, beltraninho bateu no colega, peço providências…

Mas os casos de agressões violentas, bullyings que machucam o corpo e a alma para sempre, aumentam vertiginosamente. As arminhas de plástico, proibidas no comércio, foram substituídas por armas reais. Agora o tiro mata o coleguinha de verdade.

O que aconteceu conosco? Em que momento nos tornamos estes pais aborrecidos e superprotetores que tornaram a infância uma etapa chata e enfadonha?

Será que temos que ter agendas ainda maiores para levá-los à exaustão e aí, quem sabe, eles ficam quietos e dão sossego? Aí quem sabe dormindo não teremos medo?

Nossas crianças viraram mini adultos no vestir, no direito de escolha das férias, do cardápio e dos horários familiares. Agora eles tem Facebook e Instagram, mas se transformaram em seres cada vez mais carentes e cansados. Ter curtidas e visualizações é importantíssimo, já que não sobra muito tempo para abraços, beijos e conversas. As crianças de hoje querem é crescer rápido para ter a liberdade dos adultos. Perderam a alegria e o gosto de brincar. Agora o que importa é disputar.

Disputa que continua na sala de aula, onde é preciso ser curtido, ser visualizado e comentado. Precisamos engajar nossos colegas nas nossas transgressões, indisciplinas e incivilidades – óbvio! Desde quando ser comportado causa impacto e comentários? Desde quando viver dentro das regras gera notícia?

E o professor?

O professor é cada vez mais responsabilizado pela mídia e pela família pela educação – como se ele sozinho pudesse dar conta de uma formação ampla que passa pelo exemplo cotidiano, pela observação de comportamentos nas mais diversas e variadas situações, pela convivência comunitária e familiar, pelo repasse de valores e princípios particulares de cada família e contexto social.

Desmotivado, cansado e desanimado com a realidade que encontra, o professor precisa chutar, cabecear, atacar e defender para conseguir chegar ao fim do ano com o conteúdo em dia, antes que a família e a direção da escola se voltem mais uma vez contra ele por não ter passado o conteúdo a contento. Imagine! Uma escola tão cara e o professor não passa o conteúdo? Ou então, como é que pode? Uma fila dessas para entrar nessa escola que dizem que é melhor que a do meu bairro e o professor não ensina nada?

Existe solução para a situação vivida pelos alunos e professores? Sim, claro!

O trabalho deve começar primeiro pela admissão de que o problema existe sim e que é de responsabilidade de todos. Depois devemos insistir no resgate da autoestima do professor, para que ele volte a poder se posicionar e corrigir, a indicar o caminho sem ter medo de que o aluno mude de escola, de perder o “cliente”, de ser denunciado na secretaria de ensino, de ser agredido física e verbalmente.

Professor sempre foi aquele que aponta o caminho, que instiga e incentiva, que nota e percebe, que está atento e que oferece ajuda. É preciso permitir que este professor volte à tona, que tome novamente seu lugar de autoridade e que cumpra a sua tarefa de ensinar muito mais que o conteúdo, ser mais uma a ensinar, pelo exemplo e pela vivência, que podemos e devemos ser pessoas corretas, apesar de todos os novos brinquedos incorretos.

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